Agricultura fiscaliza dois frigoríficos investigados na 'Carne Fraca' em GO


Fiscais estiveram na BRF, em Mineiros, e na JJZ Alimentos, em Goianira.
Investigados por fraudes em Goiás foram demitidos pelo ministério.



O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) realiza nesta segunda-feira (20) uma inspeção em 21 frigoríficos do país que são investigados na Operação Carne Fraca, da Polícia Federal. Em Goiás, a ação ocorreu em dois estabelecimentos, sendo um da BRF - Brasil Foods, em Mineiros, na região sudoeste, e o outro da Primor Beef - JJZ Alimentos, em Goianira, na Região Metropolitana da capital.


Durante a operação da PF, na última sexta-feira (17), os dois frigoríficos foram alvos de mandados de busca e apreensão, suspeitos de envolvimento na venda ilegal de carnes. Ainda na semana passada, o Ministério da Agricultura determinou a interdição da unidade da BRF em Mineiros. Já a unidade da JJZ Alimentos, em Goianira, segue funcionando normalmente.
Em nota, a BRF informou que o frigorífico em Mineiros foi interditado pelo Mapa, de forma preventiva, até que a empresa passe informações sobre a segurança e a qualidade dos produtos.
Já o diretor presidente da JJZ Alimentos, Jorge Jonas Abrockis, falou em entrevista à TV Anhanguera que o frigorífico não sofreu qualquer tipo de bloqueio desde o início da operação da PF.
“A Polícia Federal foi especificamente no Serviço de Inspeção Federal, o SIF, que fica dentro da empresa, mas ela é coordenada pelo Ministério da Agricultura. Isso em função de um funcionário público, que está com suspeita de corrupção. Então, em momento nenhum, a Polícia Federal fez um bloqueio na empresa, nem mesmo de um produto, de atividade, nada. Então, estamos com todas as atividades normais”, afirmou.
Carne podre
Fiscal do Mapa que denunciou o esquema, Daniel Gouveia Teixeira diz que os frigoríficos usavam cabeças de suínos e um produto químico conhecido como ácido ascórbico como um truque para “maquiar” a qualidade. “Ele é misturado na massa dos produtos para poder diminuir a infecção bacteriana e mascarar os odores e as características de carne podre”, afirmou.
O Mapa destacou, em nota, que o uso do ácido e de cabeça de suínos não é proibido, desde que estejam dentro das normas estabelecidas pelo ministério.
Já o Sindicato das Indústrias da Carne e Derivados do Estado de Goiás (Sindicarne) garante que, apesar das suspeitas de irregularidades na liberação de licenças e fiscalização irregular de frigoríficos, a carne produzida no estado é de boa qualidade.
“Como é que uma indústria vai produzir uma carne moída misturada com papelão? Qual a diferença do músculo da cabeça do porco com a paleta, ou do lombo? Todas são carnes e têm a mesma quantidade de proteínas. Posso dizer ao consumidor goiano que a carne de Goiás é de primeira qualidade, é a melhor produzida no Brasil”, destacou o presidente do Sindicarne, José Magno Pato.
O diretor da Vigilância Sanitária de Goiânia, Dagoberto Costa, afirmou que, caso necessário, o órgão está preparado para intensificar a fiscalização nos frigoríficos goianos. “Se houver um recall da carne, nós teremos equipes reforçadas para fazer essa fiscalização. Então, realmente, nós estamos no aguardo de mais informações sobre o assunto”, disse.
Fiscais do Ministério da Agricultura fiscalizam frigoríficos alvos da Carne Fraca, em Goiás (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)Ministério da Agricultura fiscaliza frigoríficos alvos da Carne Fraca, em GO (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)













Demissões
Segundo as investigações, em Goiás, o esquema era liderado pelo ex-chefe do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal em Goiás (Sipoa-GO), o médico veterinário Dinis Lourenço da Silva. Ele foi dispensado do cargo pelo Mapa nesta segunda-feira, assim como o superintendente Federal de Agricultura em Goiás, Júlio César Carneiro, que foi exonerado.
O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, disse no domingo (19) que obteve aval do presidente Michel Temer (PMDB) para fazer as demissões de servidores do ministério que tinham padrinhos políticos. No caso de Júlio César Carneiro e Silva, eles eram indicações do PTB.

G1 tenta contato desde a manhã desta segunda-feira com o advogado que defende Dinis, que foi preso preventivamente na sexta-feira (17), mas as ligações não foram atendidas até esta publicação.
Já Júlio César, que foi levado para depor coercitivamente, informou à TV Anhanguera que, por enquanto, não vai se pronunciar sobre o assunto.

O deputado Jovair Arantes (PTB), citado em escutas da Operação Carne Fraca, informou à TV Anhanguera, por telefone, na sexta-feira, que a única indicação dele e do partido no Ministério era Júlio César, que foi exonerado em abril do ano passado. Ele disse ainda que, por ter sido relator do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), todas as pessoas ligadas ao partido foram retiradas das pastas.
Dinis Lourenço da Silva e Júlio César Carneiro foram demitidos pelo Ministério da Agricultura, em Goiás (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)Dinis da Silva e Júlio César Carneiro foram demitidos após operação (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)












Escutas telefônicas
Dinis foi flagrado em escutas telefônicas negociando a manutenção do frigorífico da BRF em Mineiros, que tinha indicação de suspensão das atividades.Em troca do favor, segundo um representante da empresa, Dinis solicitou R$ 300 mil para a campanha de um partido nas eleições municipais de Goiânia.

A quebra do sigilo das conversas telefônicas foi autorizada no dia 9 de maio do ano passado, segundo a decisão do juiz federal Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Federal de Curitiba (PR). O G1 obteve a transcrição das conversas em consulta ao site da Justiça Federal do Paraná.

Na época, o PTB integrava a Coligação Renova Goiânia. Nela, o partido tinha como candidato a vice-prefeito o ex-comandante do Comando de Policiamento da Capital (CPC), Coronel Pacheco, que não teve o nome citado nas escutas.
Na sexta-feira, o G1 pediu ao Mapa um posicionamento sobre a investigação envolvendo Dinis Silva e Júlio Carneiro. Porém, o órgão citou apenas uma nota, divulgada no site do Mapa, no qual o ministro Blairo Maggi diz que as "apurações da Polícia Federal indicam é um crime contra a população brasileira, que merece ser punido com todo o rigor".
Ainda segundo a nota, o ministro disse que "neste momento, toda a atenção é necessária para separarmos o joio do trigo. Muitas ações já foram implementadas para corrigir distorções e combater a corrupção e os desvios de conduta, e novas medidas serão tomadas. Estou coordenando as ações, já determinei o afastamento imediato de todos os envolvidos e a instauração de procedimentos administrativos. Todo apoio será dado à PF nas apurações. Minha determinação é tolerância zero com atos irregulares no Mapa".
Em nota sobre a operação, a BRF disse que está colaborando com as autoridades para o esclarecimento dos fatos. A companhia reiterou que cumpre as normas e regulamentos referentes à produção e comercialização de seus produtos, possui rigorosos processos e controles e não compactua com práticas ilícitas. A empresa ainda  "assegura a qualidade e a segurança de seus produtos e garantiu que não há nenhum risco para seus consumidores, seja no Brasil ou nos mais de 150 países em que atua".
Já defesa de Roney Santos também não foi localizada para comentar o assunto.
operacao carne fraca, arte, v4, 36 presos (Foto: Editoria de Arte/G1)

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